domingo, 6 de fevereiro de 2011

Viver eterno

O homem busca a imortalidade. Mesmo em seus primórdios o sonho do viver eterno é o tema central de lendas e historias que transitam por incontáveis gerações.
Por que tamanha vontade? Seria mesmo a vida eterna um dom? Respostas de cunho muito pessoal. E encontraremos militantes fervorosos tanto para o sim quanto para o não.

O mais importante aqui é o fato de que a imortalidade vem do desejo de estar presente. O que isso quer dizer? Quer dizer que a simples ideia de ser esquecido causa um pavor desmedido, pavor que se soma ao medo da morte. Na mente a morte é como um esquecimento, ausência, vazio.

Nosso imaginário supre esse estado de vazio com ideias, sonhos e incontáveis mecanismos de evasão. É do medo da morte que surge a ideia de uma vida após a que possuímos. Seja ela em forma de uma nova encarnação, ou através de um transcender que ultrapassa o entendimento humano.

O impossível de se suportar é o esquecimento. O que mais teria motivado ao homem a criar marcas únicas? Mais do que a necessidade de comunicar-se, é uma forma de preservar um pedaço de si em uma rocha, manuscrito, livro, ciberespaço...

A tecnologia avança e, com isso, se torna mais fácil o esquecimento e a tendência que as coisas - pessoas, momentos, lembranças - têm a cair no ostracismo. Realidade presente e inevitável. Da maneira que somos atingidos por rios e rios de informação fica difícil lembrar do café da manhã.

O esforço por imortalizar-se é como uma Ilíada. O problema é que nem todos são como os heróis épicos e muito provavelmente não sairão da sombra de seu anonimato. Por melhor que seja a intenção não serão todos que atingirão a "imortalidade". Mas esse não deve ser o propósito de nossas vidas. Viver em busca de algo assim é como perseguir o horizonte.

O melhor a se fazer é viver bem e buscar ser sempre bom. Para que assim eu possa ser o melhor e me tornar imortal!? Não, para que a sua vida e a daquelas pessoas a sua volta seja melhor. Para que o seu entorno seja sempre um ambiente em que sentirá confortável e em paz.

Quem busca a imortalidade não saberá desfrutar a vida. Mas aquele que desfruta bem das oportunidades - sem prejudicar ninguém - vai ser lembrado por gerações.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Qual é o seu deus?

Mais uma vez me falam de deus, de Deus, de deuses. Mais uma vez tentam me fazer acreditar que sou um nada, um grão de areia sem importância.

Seria eu uma coisa tão previsivelmente desprezível que tenho de crer em tudo que me dizem? E porque querer sempre as pessoas de joelhos, se erguidos e de peito aberto que verdadeiramente conseguimos alcançar nossos objetivos.

Esses são os deuses apresentados: cruéis torturadores, egocêntricos e narcisistas. Como poderiam ser tão contraditórios.

Querem o amor e o bem, condenam para a eternidade. Desejam ser adorados todo o tempo, cobram a atenção espiritual e material de suas criações. Criaram todas as coisas, mas sua criação favorita, -  e dotada com o dom de mudar o mundo - é feita a sua imagem e semelhança.

Dentro de sua magnitude de infinito conhecimento e poder cria quebra-cabeças infundados para que o homem se sinta ainda mais dependente e ínfimo.

Quão bondoso, condolente deus. Que em algumas de suas imagens perdoa os erros de todos que queiram o perdão e em outras condena sem direito a julgamento por qualquer erro, ou mesmo apenas por ter nascido.

Quantas imagens, quantas alternativas, quantos "combos"...

"Senhor, gostou da nossa apresentação standard? Vem com um Deus compreensivo e complacente. Apenas necessita de uma doação mensal do seu dinheiro durante toda vida e desfrutarás de uma eternidade satisfatória"

Hum.... não sei.

"Não se preocupe, caso não tenha gostado também temos aqui uma edição premium: adoração cega e sem questionamento. Acompanha alto flagelo, mas aceita umas escapadelas. Ou então..."

Acho que eu não vou querer, obrigado. Deuses e deuses, mas qual deles é o certo?

"Todos os caminhos levam a deus..."

Então porque tenho de escolher entre ir com esse, ou aquele? E por que se sigo esse odeio aquele!? E por que uns podem ter mais liberdades e outros nem uma? Por que há um deus que subjuga as mulheres?! Não somos todos iguais!?

"Esse é o conceito de outro deus..."

E se eu escolho apenas pensar que o mundo é maravilhoso, que a natureza é uma imensidão rica e que o universo é assim impossível de se prever. E se eu escolho pensar por mim mesmo. E se eu não quiser seguir há nem um desses modelos. Se eu não quero nem um dos "combos"... como vou fazer?

"Você tem de escolher um deles, ou vai ser considerado a escória do mundo. Um descrente em tudo!"

E porque quem escolhe não acreditar em nada é a escória? Não é apenas uma escolha!? Não tínhamos o livre arbítrio?

"Sim... para escolher em que acreditar. Não acreditar em nada não pode."

Desculpa... e acreditar em algo que é só pra mim, posso?

"Não se recomenda, pode acabar sendo confundido com algum tipo intolerável..."

Mas... tudo bem, ainda sim escolho pensar por mim. Sei como sou pequeno no meio de todas as coisas que existem. Sei que existem escolhas e conceitos, mas os absurdos não poderiam parecer mais gritantes quando vejo certas cenas.

Apesar de parecer um julgamento - não queria que tivesse esse tom. Pensamentos e escolhas não podem ser medidos como certos ou errados. Peço apenas duas coisas simples - não sempre aplicadas - coerência e tolerância.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Elegia ao amor

Amor,
Suas palavras piegas trocadas por amantes
Que no êxtase de seu torpor não se importam se es fantasia

Que em tempos de guerra vive de esperança e incerteza
Para resistir o tempo e voltar aos braços da amada

Tão singular, tão confuso e confundido amor
O mundo quer matar-te, os amantes esquecem teu valor

Outrora puro, casto, pudoroso
Agora te vês salvagem, sedento, carnal

Que te aconteceu?
Por quais vielas imundas te fizeram sangrar?

Não acabes, não te desfaças, nem te entregues!
Em cada coração que morres plantas a desilusão

Anjos se tornam farrapos sem vida
Palavras ditas com vigor se despedaçam

O sentido se retorce
O meio se torna finalidade
E o sentimento apenas carne

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Saída

Um coração que bate amargurado por não poder parar
Uma lágrima que deixa de rolar pelo bem amado
Que consolo guarda a noite escura para os amantes desapontados?
Melhor perder-se na solidão conjunta que findar em um sofrer amargo
E que o peso de meus pesares se afoguem no suor de um amor pago

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Diálogo

-Achei legal o que você escreveu.

-Obrigado

-...Mas eu tenho uma crítica construtiva a fazer... se importaria?

-Claro que não, diga.

-Acho que te falta um pouco de eloquência, quem sabe é por alguma questão mal resolvida em âmbito pessoal...

-Eloquência? Não, não... eu não busco eloquência A falta de sentido e a loucura são as coisas que eu mais busco. Gosto do impreciso, daquilo que poderia falar... mas no fundo não fala. As verdades já foram destruídas, o mundo já é louco. Por que não ser um pouco louco também?

-O que é real não se desfaz, acho que aí mora o seu equívoco.

-Gosto da arte, dos pés fora do chão! Nada de realidades torturantes.

-Você não me entendeu...

-Você é que não me entendeu. Eu brinco com as palavras, eu não busco eloquência. E o sentido? Espero que cada um ache o seu.

Ludy, obrigado por me dar esse texto. Talvez um dia você me entenda, talvez um dia eu te entenda.
Mas isso não importa de verdade.
Beijo

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Meu mal

Padeço do mal dos amores proibidos
Seja por deus ou pelos homens
Vivo como se nada estivesse errado
Rindo das piadas, consolando amigos,
Sorrindo pros bons momentos e chorando nos maus
Vivo a amar sem ter amor, a cultivar árvores estéreis
Passo um dia após outro respirando para viver
Por dentro a alma definha
Meu mal só conhece uma cura
E sou a cura para a minha cura
Padeço do mal dos amantes desencontrados
Minha enfermidade tem um único nome: saudade

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Certos encontros

A cada dia que passa vem um fantasma do passado para nos lembrar de coisas que nem sempre são tão animadoras. E recordamos quão idiotas fomos, ou ainda somos.

Esse cara a cara é bem mais um desconforto do que qualquer outra coisa. Mais ou menos como encontrar um colega de infância do qual lembramos ter tornado a vida um inferno por um tempo quando eramos novos, e descobrir que ele hoje é o nosso chefe, ou mesmo alguém que tenhamos de lidar com algum grau de hierarquia.

Tem o caso daquela pessoa com a qual tivemos alguma relação "amorosa" e depois ela volta a aparecer quase como se fosse puxar nosso pé durante a noite. Por que as coisas nem sempre terminam bem. Na maioria das vezes alguém quer levar o coração do outro para si, e eu não digo isso de uma maneira poética, é o coração de verdade. E a pessoa quer arranca-lo do nosso peito enquanto ele ainda bate! Para colocá-lo numa estante como uma recordação de algo que "não voltará a acontecer".

Essas aparições tão aleatórias e divertidas - divertida como dor de roxo: dói, ainda sim você aperta o lugar - causam um certo arrepio na nuca, e um bocado de vertigem. Pessoas são estranhas, nunca se sabe como vão reagir.

O tempo não atua de forma igual para todos, menos ainda para as situações que são diversas. E ainda assim criamos um balé que fica entre uma provável reação ruim, a possibilidade de ser ignorado e uma simpatia constrangida.

Às vezes mesmo com alguém que tínhamos uma relação boa pode passar isso. Pelo tempo passado, sentimos que já não existe a cumplicidade de outrora, uma completa verdade. E ficamos sem ação por já não saber como a pessoa reagirá no caso de um tratamento mais carinhoso, ou mesmo de uma atenção mais afetuosa (sem qualquer conotação sexual).

Sofro do mal dos encontros estranhos e esquisitos. Sofro por não saber como agir frente a um constrangimento. Sinto que minhas pernas, tronco, braços, mãos, dedos... Meu deus pra que um corpo com tantas partes!? Todas elas ficam sobrando e se movimentam caoticamente tentando achar o lugar onde deveriam estar. Algo praticamente impossível é sair desses eventos sem sentir-se idiota.

Viva os encontros com nossos bons e maus fantasmas, só vou pedir para que não me assustem muito. Mas o esforço nem vale: um "oi" já basta para uma pequena parada cardíaca.