Olá Dezembro, senhor barrigudo representante da bonança e da fartura. Que sua imagem caricata não seja apenas uma ilusão na mesa de centenas de milhões que – por mais um mês – lutam pra sobreviver nesse mundo tão sedento por justiça.
Entre, venha logo. Agora o senhor é quem comanda o ano, pois faça dele algo memorável. Tente ser menos monótono e previsível do que seus irmãos. Quem sabe assim possamos promover uma real mudança de padrões para o ano que se segue. Com o exemplo de tão digno senhor incumbido de guardar os portões do fim/inicio de mais um ciclo os demais guardiãs dos meses se sentirão impelidos a copiar tão audaciosa ação.
Ora, mas não se sinta intimidado... por favor! Eis que essa é apenas uma sugestão de um mortal que nada pode decidir sobre as grandes e intricadas redes que regem o universo. Apenas não se esqueça: mesmo a mais insignificante das vozes pode, por vezes, estar certa.
Perdoe a petulância desse mortal que vos fala, nobre senhor. Sou apenas um reflexo imperfeito de um clamor inconsciente e dormente de outros tantos mortais. Ou, quem sabe, seja apenas um insolente que se crê maior do que realmente é. Perdoe minhas divagações tão mundanas e infantis. Quem poderia querer dirigir-se ao guardião do mês sem ao menos buscar transmitir eloquência.
Voltarei a minha insignificância contida, ao meu ser de razões ininteligíveis. Vos, senhor, que reine por mais um mês. Termine mais um ciclo, e volte a reunir-se com seus irmãos. Os mortais ainda passarão – figuras indiferentes diante de vossas grandezas. O mundo continuará a ser esse grande ninho de historias que a curiosidade imortal desbravará até o fim dos tempos.
Mais do que dizer o que se pensa é importante saber escutar. Nem sempre pontos de vista são afins, e é bom que não sejam. É do choque de pensamentos que se criam novas ideias. Eu estou aqui para dizer o que eu penso, aos que se sintam incomodados... que tenham um bom dia.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
domingo, 4 de dezembro de 2011
sábado, 26 de novembro de 2011
Os beijos
Em cada beijo – abraço e afeto –
Deixo pra tras um pedaço
Desfaço-me nesses gestos
E em seus doces sabores
Relembro seus gozos e tremo...
Diante da certeza de não mais voltar
Sendo assim: quem sou?
Fazem falta os pedaços que perdi,
Levaram-me pra longe de mim
Se um dia fui obra inteira
Hoje sou menos que parte
Como os braços da Vênus
Sou aquilo que não existe
A centelha do imaginado
Um delírio desgarrado
Parti em busca de ti
Quem na multidão?
Alguma alma perdida
Ventania desprendida
Nada, eras vos...
Como eu: outro nó
E novamente me pus a pensar
“Se dos frangalhos que restam
Me jogo no mundo a buscar
Seguramente finda minha luz
Sem que do amor possa gozar”
O triste pensar da emoção
Maliciosamente transvestida de razão
Fez-me então autor de novo intento
Nunca mais doar-me e assim –
Mentirosamente assim –
Desbravar aquilo que não é
E não quer nunca ser: amor
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
O míope
Era um rapaz jovem e bem arrumado, levava uma bíblia no colo. Logo notei que era míope e fechava forçosamente os olhos na tentativa de ver as coisas no seu entorno. O mundo devia mesmo parecer estranho a sua vista. Pena ele não ter uns óculos naquele dia cinza. Tinha apenas a sua bíblia e a segurava com vontade – como um naufrago se segura a uma tábua que flutua no mar.
Minha curiosidade fluía num mar de imagens disformes tentando entender com será que ele via o mundo. Tentar ver o mundo através dos olhos do outro... esse seria um poder realmente interessante. Permitiria mudar tudo, ver o mundo que o outro vê, entender suas motivações e preconceitos.
Preconceitos, cada um de nós leva os próprios. Alguns são comuns, outros variam na intensidade, há ainda aqueles que chegam a ser antagônicos. Coisas de cada um, coisas do íntimo. E é essa porção interna que revela curiosidades nas superfícies mais externas do ser. Como manias e as formas de tratar o mundo. Mesmo os pequenos gestos podem entregar um pouco do que se passa por dentro.
Continuo a observar o míope, ele talvez tenha esquecido os óculos em casa. Tem gente que não gosta de usa-los continuamente, pra falar a verdade não sei bem como funciona. Por enquanto não tenho de me valer deles para enxergar, mas talvez em alguns anos eu entenda.
Quem sabe, não fosse sua visão um tanto disforme das coisas, aquele livro não lhe seria tão importante. Por que do modo com o qual ele o carrega sugere uma relação de dependência, ou estaria eu impondo meus preconceitos...? Talvez, entretanto ainda acho que ele demonstra excessivo zelo.
Livros são livros – importantíssimos, devo acrescentar – e é difícil julgar quão profunda é nossa interpretação do que está neles. Interpretar as coisas é uma arte, deveras arriscada. Se existe alguém que sabe qual o real sentido das palavras esse alguém as escreveu. Porém, do momento que elas abandonam sua mente para alojar-se no papel o próprio escritor fica sujeito a perder-las.
Tenho medo das pessoas com o dom da oratória, em suas bocas qualquer coisa se metamorfoseia tornando-se aquilo que bem quer seu transmutador. Fico apreensivo quanto aos danos que alguém assim causa em mentes não muito atentas, tornando algo interpretável em lei inquestionável.
O mundo deve estar mesmo muito torto e suas imagens devem ter sido muito bem moldadas para tal. O rapaz era apenas um míope, que segurava firmemente o que para ele devia ser a razão do viver. E eu? Apenas mais um passante, porém daqueles que olha o mundo atento às figuras anônimas que atravessam a vista – sempre inquieta.
domingo, 20 de novembro de 2011
Teatralidade social
Viver em sociedade é algo incrível... Somos figuras tão diferentes e nos portamos com comedidas formalidades frente aqueles com os quais não compartimos vivências. Até que ponto permitimos ao outro conhecer nosso verdadeiro eu? Ou, quem sabe a pergunta deveria ser: em que momento deixamos de vestir máscaras sociais para que o “verdadeiro eu” seja livre para atuar?
Podemos ter tantas faces diferentes... Sem que nenhuma delas seja falsa, não senhor. São apenas variações de uma fotografia que tenta se enquadrar ao pano de fundo de forma a criar o menor número de contradições. Um mecanismo de defesa da civilidade, uma vez que o mundo – sem que ninguém tentasse se adequar as realidades tão distintas permeadas pelo dia-a-dia – seria um eterno caos.
Quando devemos nos permitir? Quando devemos nos resguardar ou cobrar do outro? Complicados níveis de interação e subordinação ditam regras intrínsecas a realidade. Coisa de tamanha subjetividade que talvez seja impossível coloca-las dentro das amarras das explicações humanas. Em palavras simples: o meio dita quais os papeis a seguir. Talvez não tenha ficado tão melhor assim...
Em todo caso, a vida em sociedade é mesmo um curioso turbilhão. Esbarramos com os limites do ser e do deixar ser a todo o momento. Crescemos e diminuímos conforme as necessidades que nos são apresentadas. Sim, somos um pouco desonestos – admito. Nem tudo que mostramos ser realmente é, assim como nem tudo que achamos ser também cumpre seu papel.
Vivemos em benefício próprio, em maior ou menor grau. Não conheço quem queria a própria desgraça para, gratuitamente, beneficiar o outro. Somos condicionados a pensar em nós mesmos e na melhor forma de se esgueirar por entre confusas amarras sociais sem cair. Desequilibrando-nos sempre, afinal de contas não há quem não cometa deslizes.
Quão rico é o viver humano – e quão cheio de contradições também. Afinal somos mocinhos e vilões, cúmplices e vítimas. Rodamos por todos os papeis com os quais se necessite para construir a trama da vida. Mesmo naqueles de menor importância, ou de ingrato reconhecimento. O lugar que ocupamos sempre é determinado pelo narrador. E ele é tão diverso quando nós mesmos.
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