sábado, 11 de fevereiro de 2012

Aquela música

Estavam abraçados na sala do apartamento dela. O rádio ligado começou a tocar uma gostosa canção de MPB, ele então de forma carinhosa e repentina disse:
– Essa música me faz pensar em você...
– Sério? – ela diz com uma cara bonitinha.
– Sério mesmo – responde ele feliz da vida.
E então ela muda completamente de fisionomia e diz: – Mas essa música é tão velha, quantas mulheres antes de mim ela já te lembrou? – Ele recebe a pergunta como um golpe na cabeça, fica totalmente desconcertado e quase cai pro lado.
– Como é que é? Eu te falo que a música me faz pensar em você e você, ao invés de se sentir feliz, me ataca do nada?
– Tenho todo o direito, vai saber pra quantas mulheres antes de mim você já disse isso.
– Mas... Meu amor... Eu nunca faria uma coisa dessas.
– Negação... tsc, tsc... É pior do que eu pensava.
O rosto dela assumiu a feição de uma investigadora perspicaz, já ele parecia mais perdido do que um bandido pego em flagrante. Engoliu seco, precisava pensar em alguma coisa.
– Não acredito que você possa duvidar assim de mim. Quer saber, essa música era especial pra mim, nem vou escutar ela do mesmo jeito agora. Fez tão pouco caso comigo que a música até perdeu a graça. – E fez uma cara de cachorro abandonado olhando imediatamente pro lado, feito um menino birrento. – As mulheres vivem reclamando que os homens não sabem ser românticos, mas olha só: a gente tenta fazer um agrado e acaba tomando pedrada na cabeça.
Pronto, estava instaurado o clima de tensão. Ela dividida entre aceitar a reclamação, ou manter firmemente sua acusação. “O que fazer?”, pensava. Internamente sentia que havia algo de errado, porém as últimas palavras dele foram de cortar o coração. E se ele só queria agrada-la e tudo não passou de um mal entendido? Afinal, ela também pode se enganar. Sabia que era um pouco "ciumenta de mais".
Ele, percebendo a dúvida em sua parceira, manteve a cara de coitado e evitou falar qualquer coisa a mais, poderia acabar estragando o que tinha conseguido até ali. Foi ela quem quebrou o gelo:
– Desculpa, vai. Peguei pesado com você. Você só queria ser legal e eu te julgando, me perdoa? – E pulou sobre ele fazendo carinho em seu rosto tentando arrancar um sorriso dele. Ele manteve a pose por alguns segundos até abraça-la e dar-lhe um beijo na boca, em sinal de paz.
– Tudo bem amor, eu até esqueci. Deixa isso de lado e fica aqui comigo. – Essa realmente tinha sido por pouco, já não sabia o que poderia fazer no caso dela insistir com a discussão. Teria de admitir que tinha errado e que aquela, na verdade, era a música da sua ex. Isso não seria nada bom.
– Só mais uma coisa amor... – disse ela, com a voz mais meiga do mundo.
– Pode falar, linda.
– A próxima vez que você pensar em outra do meu lado eu arranco seu pinto. – E lhe beijou com carinho.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Problemão

– Cara, o quê que foi? Qual é o problema?
– Te falar, o problema é mulher.
– Quem isso, meu amigo. Mulher não é problema, mulher é... um problemão.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pensamento do dia (VII)

Outro dia escutei que as pessoas tem a tendência natural de se sentirem como o ator principal de um teatro invisível que as rodeia. Depois disso percebi por que algumas pessoas se julgam tão indispensáveis para o mundo...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Cachaça – Conversas de boteco

               O amor é feito cachaça... daquelas da melhor qualidade. Essas porcarias baratas que existem por aí são como as paixões: chegam, nos deixam malucos e no dia seguinte só resta a ressaca. Uma bela de uma ressaca, sim senhor, com direito a boca seca e muita dor de cabeça – por vezes umas dores morais e algum vexame pra guardar.
               O amor é diferente... a gente saboreia, sabe? É por que, muito provavelmente, nunca mais sentiremos aquele sabor outra vez. Nunca é igual, nunca vai ser igual. Assim como uma boa cachaça – dessas que custam todo um soldo – o amor é caro. Devíamos aprecia-lo aos poucos, sentindo todos os seus sabores, isso é amar de verdade. Deixar o gosto impregnar o paladar sem pressa e a cada novo gole descobrir outro sabor.
               Não se engane, porém. Feito as paixões o amor também pode te ressaquear feio. E como pode... por isso a calma – nunca a sede – deve ser o seu controle. Digo mais: a ressaca de um amor é ainda mais dura, ela dói no fígado. No fundo do ser.
               O amor não foi feito pra se tomar em um gole só. Não, não, não... Ansiedade. É, é isso. O amor nos embriaga também, sabia? Nos deixa completamente preenchidos e loucos. Numa euforia sem igual, nem preciso dizer... Mas quando tomado com paciência conseguimos manter a sensação boa por muito mais tempo, quanto tempo possa durar uma vida.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pensamento do dia (VI)

           Um dia desses li, em algum lugar, que dar um conselho desobriga a pessoa que o dá de cumpri-lo. Desde então entendi por que sempre gostei de aconselhar quem me procura...

domingo, 22 de janeiro de 2012

Matutice

          Escuta: é o baruiu do mundo lá fora, o som do silêncio d'outro lado da porta. Cá na roça até a lua faz ruído e o tempo escorre preguiçoso.
          Aqui se faz tudin no capricho. Deus deu ao hômi a capacidade de mudá as coisa pra fazê tudo do jeito devido. As plantação cá da terra florece sempre no seu tempo e o tempo do hômi se mistura ao tempo do tempo. Num é na pressa da ligeiresa impacênte da cidade, sempre na inqueta sem vontade d'esperá. Disaprendero o valô do tempo e do trabaio feito cum amô.
          Espia pro cê vê: todo quanto há tem luga certo de fica. Não é de ciência dos hômi humano quere muda as orde divina, nem julgá as obra du sinhô lá de cima. Aques que inventa de contraria as orde do divino acaba machucanu o que num divia e maculando a terra que nos dá a vida.
           E é assim, meu fio, que o seu véio leva a vida. Aprendenu todo us dia a respeita as vontade e os quereres de quem pode mais, que é um só e é Deus. Lembranu sempre da pequeneza que tem um hômi, vivenu sempre sem querê o mal a nenhuma criatura.
          Por isso te digo: cuidado com us caminho do mundo. Não perca da cabeça nu que é fácil, pois nu tortuoso e cumpricado du mudo se isconde a reconpensa de verdade. Viva reto e seja humirde pra que um dia possa ocê mesmo ensiná aos seus os valô quea vida te amostra.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Para uma flor


Momentos e pessoas são únicos. Às vezes somos transportados a momentos e sensações vividas por pequenos estímulos: um cheiro, uma música e até mesmo uma roupa podem ser os portais que nos levam a reviver um passado gostoso que ficou impresso na memoria.
       Escutando a Caetano Veloso sou transportado a Buenos Aires, improvável? Talvez... mas foi lá que tive a oportunidade de ir em um show dele. Mais precisamente a música Leãozinho me leva a um gostoso momento que vivi por lá. Foi durante o show mesmo, estava em companhia de uma autentica porteña: magra, alta, de cabelos castanhos e rosto de menina travessa.
Contava-lhe como aquela canção me fazia lembrar uma prima que carinhosamente canta seu refrão quando me vê. Ela mais que depressa, em um ato de singela ternura, arranhou a canção em meus ouvidos tentando ao máximo imitar as palavras que o cantor entoava em português – língua estranha a ela. Assim abrasados senti um carinho enorme por aquela figura que me fazia um agrado tão espontâneo e esforçoso.
Recém chegado a terras platinas fiquei hipnotizado por tamanha demonstração de afeto. Aquela foi uma das noites mais significativas de meu ano e meio no país. Jasmin, assim como a flor perfumada esse era o nome da mulher, com jeito de menina, com a qual me senti tão confortavelmente em casa naquela noite.
Infelizmente, como nos sonhos bons, foi também a ultima noite na qual me encontrei com ela. Acontece que mesmo quando encontramos pessoas que nos são certas o momento teima em ser indevido e assim foi para nós. Entretanto, guardo no peito com afeto a noite na qual Buenos Aires ficava no Brasil, a primeira noite que percebi que não importa onde é possível sentir-se em casa.


A todas as outras pessoas maravilhosas que conheci em minha estadia em Buenos Aires peço que não se sintam diminuídas. Esse relato é apenas uma dessas coisas que volta e martela a cabeça vez ou outra, mas não quer dizer ela seja maior do que tantos outros momentos magníficos que tive o prazer de desfrutar com todos que tive a sorte de conhecer.