domingo, 7 de outubro de 2012

Mania – tomando nota de mim mesmo


Não sou nenhum desenhista, mas às vezes brinco de rabiscar as coisas – tal qual brinco com as palavras. E quando o faço tenho grande preferência pelos traços humanos: mãos, olhos e rostos principalmente. Alguns longe do real, outros em pífia tentativa de imitar o que vejo.
A parte divertida de minha inabilidade é a falta de simetria entre um lado e outro de um rosto que tenho traçar. Fico tão frustrado com o resultado desastroso de meus intentos que, na maioria das vezes, me limito a desenhar apenas metade de uma face.
Meu perfeccionismo impede que aceite minha imperícia. Imagino agora se há alguma literatura que explique minha loucura. É bem provável que sim e, também provável, que não seja algo tão incomum.
Tenho curiosidade pelos mistérios da mente, tudo aquilo que fala de forma indireta. Os detalhes mínimos que revelam naturezas aparentemente desconexas dos seres. O que pode querer dizer essa minha mania? Que traço – reprimível ou não – ela revela sobre minha persona?
Cada um de nós é um conjunto bizarro de manias que escondemos de nós mesmos. Faz anos que brinco com esses desenhos, porém somente agora me pus a pensar sobre o que poderia querer dizer esse costume. O que leva a pensar: o que mais faço de estranho...?
Talvez seja melhor ir mesmo aos poucos, assim não nos assustemos tanto. Uma vez que, notar costumes incomuns nos outros já é digno de estranheza, o que se poderá dizer quando percebemos algo tão singular em nós mesmos. 

sábado, 6 de outubro de 2012

“Coisas invisíveis”


Esse é o nome da peça que assisti essa sexta-feira e não há outro título mais apropriado para o turbilhão de sentimentos que me foi propiciado por ela.
Recebi o convite do Anderson Aníbal para assistir o espetáculo e fui até o Palácio das Artes sem saber o que me esperava e eis que encontro no palco um pedaço de mim. A cada fala ao longo da peça, senti que passagens de minha própria vida eram rasgadas e jogadas na minha cara. Vi verdades inquietantes sendo remexidas dentro de meu interior e passei a assistir os acontecimentos que se desdobravam a minha frente quase como se fossem parte de minha memoria.
Peço perdão pela subjetividade e falta de clareza ao falar sobre o espetáculo. Acredito que seria um sacrilégio tentar reproduzir qualquer pedaço dele – ou mesmo resumi-lo – para criar uma imagem mais concreta. E sabe por quê? É simples: não há nada de concreto na experiência que ele me propiciou.
A verdade é que durante todo seu percurso fui levado a lugares muito intimistas, que dizem respeito a visão particular de mundo que a vida me brindou. Assim, senti-me como expectador de vários sentimentos já vivenciados, colocados ali sobre a lupa de um olhar sensível.
Confesso – sem nenhuma vergonha – ter deixado várias lágrimas se desprenderem de meus olhos a cada fala, gesto e silêncio. O último atua como um personagem da trama, as pausas e, principalmente, tudo aquilo que cala fazem parte da reconstrução das vivencias humanas tão bem dissecadas pela peça.
Senti-me como a peça me propôs: feliz e triste, tudo ao mesmo tempo. Saí com a alma renovada, sentindo-me um pouco mais vivo do que antes de adentrar o teatro. Agradeço mais uma vez ao Anderson pelo convite e por me dar um presente tão grande que foi a peça como um todo.
A quem estiver em Belo Horizonte nesse, e/ou no próximo fim de semana, faço um convite: assistam a “Coisas invisíveis” e sinta algo que as palavras não podem explicar.


sábado, 1 de setembro de 2012

O mundo do leviatã


Gosto de dizer que sou um questionador. Essa é a minha autodefinição preferida quando tenho a oportunidade de responder – com honestidade – a pergunta: “Em que você acredita?”. E porque teria de mentir quando sou questionado sobre o assunto? Uma vez que essa é minha resposta honesta existe uma (ou mesmo várias) que não.
Minto sim, mas o faço por uma questão de autopreservação – ou mesmo pra evitar discussões maiores. Nem todo mundo consegue escutar isso de uma forma tranquila e acham um absurdo minha visão “deturpada” de mundo, sendo estritamente necessário que se acredite em alguma coisa.
Peço perdão aqui duas vezes: a primeira por não explicitar o tema até agora, que é mesmo a religião. Aos que não gostem peço (desesperadamente) que deixem de ler esse texto agora mesmo, sob pena de perderem qualquer simpatia que exista pela minha figura. O segundo é aos meus amigos que – abertamente – odeiam que eu fale sobre isso. Lamento, mas vai sempre acontecer.
Tente entender uma coisa, respeito de forma muito profunda a todos os que acreditam em qualquer que seja a religião (excetuando os casos nos quais essa crença causa algum dano ele e/ou outras pessoas). Entretanto acho difícil nutrir a mesma simpatia por qualquer que seja a linha de pensamento religioso. Não gosto das coisas prontas, tão pouco aceito respostas engessadas. Gosto do questionar, do ir a fundo do meu jeito. Com isso, se torna um tanto complicado que me enquadre em qualquer religião.
Também me incomoda a ideia de que o ser humano só é bom, só é capaz de realizar o bem, se estiver ameaçado por forças maiores a seu entendimento. O grande leviatã ainda vive e se molda de acordo com a crença e os costumes vigentes. Seriamos tão primitivos que se não fosse pela promessa de um castigo/paraíso eterno nos voltaríamos inteiramente à barbárie? Somos criaturas tão irracionais ao ponto de que o errado só passa a fazer sentido por causa de uma punição “divina”?! Não existe o bem pelo bem...?
O mundo é regido pelo divino, pelo medo. A bestialidade humana é somente suprimida por se acreditar na vigilância onisciente de um ser maior. Não peço que compactuem com meu pensamento, mas por acaso alguém entende a minha angústia? Dia após dia não sucumbimos ao caos devido a essa película psicológica extremamente frágil.
Talvez a parte mais chata de minha “descrença” seja o fato de que tenho de mentir o tempo todo sobre ela para não ferir os sentimentos das pessoas que não aceitam minha posição. Ao dizer o que penso ofendo, me dizem estar desrespeitando a quem crê, mas e EU!? Quem vai me respeitar? Já cheguei ao cúmulo de sentir vergonha de ser assim – por vezes ainda sinto – e por ter de evitar o tema, ou fazer ainda pior: fingir acreditar em algo que pra mim não faz o mínimo sentido só pra não aborrecer a alguém.
A única coisa que eu queria era poder nutrir meu pensamento sem me sentir mal por isso. Queria não ser censurado por ser como sou e receber de volta o mesmo respeito que ofereço aos outros gratuitamente. Gostaria que pessoas não vissem como “demônios” quem não se vincula a nenhuma religião. E, principalmente, que entendam que é possível sim ser uma boa pessoa independentemente disso.

domingo, 26 de agosto de 2012

Apresentando-me ao posto

Na chegada ao humilde posto de saúde Amador Cândido de Camargos fica evidente a natureza simples e precária do atendimento que se presta a comunidade em seu entorno. Explicita como nosso país possui um modelo de saúde invejável no papel que, entretanto, ainda não conseguiu alcançar o mesmo patamar de excelência quando posto em prática – uma pena.
Desde nossa chegada recebemos pedidos de desculpas mil por tais precárias condições, mas seria realmente a nós a quem esses pedidos de desculpas deveriam estar dirigidos? Como estudantes de medicina estamos aqui para enfrentar a dura realidade que permeia o cotidiano de trabalho e nos poupar disso somente criaria a falsa impressão de que “tudo vai bem, obrigado”.
Pois então, a quem deveríamos nos desculpar? Ora, não é óbvio? A verdade é que quem sofre com essa situação está bem a nossa frente: as famílias que recorrem a esse serviço e dependem dele para manter o bem estar de seus membros de forma individual e conjunta. Como esperar eficiência no atendimento se para marcar uma consulta o doente tem de acordar em plena madrugada para pleitear uma senha para tal, sempre muito escassas, e se não a consegue tem de se conformar, voltar para casa e esperar uma nova tentativa.
Prosseguimos em nossa visita e fomos apresentados as agentes de saúde que deveremos acompanhar até o fim do semestre para que conheçamos algumas das famílias que participam do PSF (Programa Saúde da Família). Cada um de nós, com sua respectiva agente de saúde, foi incumbido em caminhar por determinada porção do raio de atuação do posto. Ali começou o verdadeiro confronto com a realidade.
Numa mesma rua pude ver como as casas se misturavam. Havia sim casas que ostentavam adornos um pouco mais elaborados e se mostravam bem pintadas e cuidadas, ao lado delas sempre era visível a quebra do padrão por construções verdadeiramente simples e que se pareciam doentes quando comparadas as primeiras. Era quase como se as construções evidenciassem a realidade que encerravam por dentro de suas paredes e, aos poucos, iam se tornando um reflexo do que guardavam.
Não vou aterme aqui em cada uma das casas que visitei. Porém, posso dizer que a maior necessidade de todas que vi nesse dia foi a carência. Não entenda isso como falta de dinheiro ou coisa parecida – não que ela também não exista –, me refiro a necessidade intrínseca do ser humano em sentir-se acolhido e amparado. Em ter uma motivação a seguir em frente, sentir-se como parte da comunidade e importante dentro de sua construção.
Qualquer um que trabalhe em ações sociais sabe bem a que me refiro e uma frase que escutei naquele dia traduz isso da maneira mais simples que poderia pensar. Uma senhora me disse: “Venham mais vezes aqui em casa, gosto mais das conversas do que dos remédios”, aí está traduzida a verdadeira necessidade humana da qual me referia no paragrafo anterior. Essa é a essência desse tipo de trabalho o contato direto com o paciente para garantir que não só sua saúde física e mental esteja satisfeita, mas também sua saúde social. Afinal de contas toda conversa é também um remédio.
A visão que temos não chega a cobrir nem a ponta do iceberg, a falta de estrutura dos postos afeta diretamente o bom trabalho do PSF. Ainda faltam profissionais em ambas as áreas, ainda falta uma melhor preparação de quem lida com áreas de risco, ainda falta ao governo prestar uma melhor assistência a esses profissionais para que possam atuar de maneira mais efetiva...
E se citasse aqui as tantas coisas que faltam resultaria em um texto infinito e esse não é meu objetivo. Quero simplesmente expressar meu olhar quando cheguei pela primeira vez ao posto de saúde, quero ter registrado minha visão para que no futuro eu não me esqueça, nem aceite que se torne comum, tudo o que eu vivi.

domingo, 19 de agosto de 2012